50ª Moda Lisboa: O antes e o presente por José António Tenente

Para comemorar a 50ª edição da Lisboa Fashion Week organizado pela Associação Moda Lisboa, convidei o criador José António Tenente para falar um pouco sobre o antes e o depois da chegada da Moda Lisboa. Como era ser criador de moda em Portugal antes da criação da Moda Lisboa, e o que esta associação veio mudar ao setor.

O Passado e o Presente

O que significava ser estilista em Portugal antes da Lisboa Fashion Week? Que desafios existiam e como eram ultrapassados?

Desde que apresentei a minha primeira colecção em 1986, tudo mudou no panorama da moda nacional. Portugal era um país a sair de um longo período fechado ao exterior e quase todas as actividades criativas estavam na época a encontrar um terreno fértil. Não tínhamos tradição na área do design de moda e mesmo tendo uma vasta tradição têxtil, as condições não eram, e talvez continuem ainda a não ser, as mais favoráveis para a moda de autor, nomenclatura que na época também não era comum.

Os desafios eram muitos… quase todos, aliás, e os maiores foram vencer barreiras e ‘abrir portas’… desde a compra de materiais, até encontrar costureiras disponíveis para trabalhos um pouco mais ‘alternativos’, já para não falar em fábricas que, na altura, ainda tinham apenas disponibilidade para as grandes quantidades para exportação. Os canais de distribuição e comercialização eram mais ou menos “ficção científica”. O diálogo entre o design e a indústria nacionais só mais tarde se tornou uma realidade mais comum, e até lá foi uma luta diária.

A Lisboa Fashion Week era algo que já era desejado há muito por criadores nacionais?

Francamente não consigo afirmar que houvesse essa consciência colectiva por parte dos criadores, até porque, na verdade, não éramos assim tantos e estávamos todos a começar, com projectos muito diferentes entre si, com objectivos também muito distintos, com as doses de inconsciência e amadorismo inerentes ao crescimento. Não me lembro de haver propriamente uma classe unida que tivesse a noção da importância de criar uma plataforma para tornar as apresentações das colecções uma realidade regular e contínua. A Eduarda (Abbondanza) e o Mário (Matos Ribeiro) tiveram essa ideia e souberam aproveitar as oportunidades que estavam a surgir e criar as condições para o fazer.

O que é que a Modalisboa trouxe ao sector que não havia antes?

Trouxe tudo, até mesmo criadores que de outro modo poderiam ter demorado muito mais para se darem a conhecer e se afirmarem. Mas, sobretudo, contribuiu para a profissionalização da moda de autor, obrigando a que esta actividade entrasse nos calendários internacionais, com apresentações das colecções antecedendo seis meses a estação, e também pelo aparecimento de todas as profissões que são necessárias para a realização de um desfile. As equipas de bastidores, aderecistas, maquilhadores, cabeleireiros, técnicos de luz, som, a comunicação… tudo isto que hoje é ‘banal’ estava mesmo a despontar e as pessoas que o começavam a fazer tinham as suas formações ligadas a outras áreas que não especificamente a moda. Até mesmo as agências de modelos, ou a imprensa de moda estavam no seu início.

A Modalisboa contribuiu para que todas estas componentes se fossem organizando e desenvolvendo até à realidade que hoje conhecemos. Há incontestavelmente um cenário ‘pré’ e ‘pós’ Modalisboa no panorama da moda nacional.

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